{"id":309,"date":"2021-11-01T17:32:37","date_gmt":"2021-11-01T20:32:37","guid":{"rendered":"https:\/\/verouvindo.com.br\/?p=309"},"modified":"2022-09-22T00:13:05","modified_gmt":"2022-09-22T03:13:05","slug":"a-audiodescricao-e-artistica-parte-da-subjetividade-do-olhar-entrevista-com-a-homenageada-bell-machado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/verouvindo.com.br\/6verouvindo\/a-audiodescricao-e-artistica-parte-da-subjetividade-do-olhar-entrevista-com-a-homenageada-bell-machado\/","title":{"rendered":"&#8220;A audiodescri\u00e7\u00e3o \u00e9 art\u00edstica, parte da subjetividade do olhar&#8221;. Entrevista com a homenageada Bell Machado"},"content":{"rendered":"<p><b><i>&#8220;A audiodescri\u00e7\u00e3o \u00e9 art\u00edstica, parte da subjetividade do olhar&#8221;<br \/>\n<\/i><\/b><i><span style=\"font-weight: 400;\">Entrevistamos Bell Machado, pioneira da audiodescri\u00e7\u00e3o no Brasil e uma das homenageadas do 6\u00ba VerOuvindo<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Bell Machado \u00e9 uma das pioneiras da audiodescri\u00e7\u00e3o no Brasil. Desde o in\u00edcio dos anos 2000 at\u00e9 hoje, tem pesquisado as nuances da tradu\u00e7\u00e3o das imagens e do olhar cinematogr\u00e1fico para as pessoas com defici\u00eancia visual, ao mesmo tempo em que coloca a m\u00e3o na massa com a produ\u00e7\u00e3o de audiodescri\u00e7\u00e3o, em que articula uma vis\u00e3o mais po\u00e9tica e ao mesmo tempo mais ligada aos conceitos do cinema.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para ela, \u00e9 importante que o recurso n\u00e3o d\u00ea apenas \u00eanfase ao conte\u00fado e \u00e0s provoca\u00e7\u00f5es da imagem, mas tamb\u00e9m aos meios pelos quais essa imagem existe, acontece e pode provocar quem a frui. Assim, a audiodescri\u00e7\u00e3o \u00e9 meio tamb\u00e9m para pensar a pr\u00f3pria imagem, e n\u00e3o s\u00f3 o contr\u00e1rio, e tamb\u00e9m para a expans\u00e3o do pr\u00f3prio vocabul\u00e1rio imag\u00e9tico e cinematogr\u00e1fico dos espectadores com defici\u00eancia visual.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nesta entrevista, tentamos percorrer e comemorar os vinte anos do trabalho de Machado na tradu\u00e7\u00e3o das imagens para entender um pouco mais do que ela pensa sobre os caminhos das audiodescri\u00e7\u00e3o no Brasil, desafios e promessas para o futuro e a rela\u00e7\u00e3o com produtores e diretores de cinema. Confira:<\/span><\/p>\n<ol>\n<li><b> Voc\u00ea foi uma das pioneiras da audiodescri\u00e7\u00e3o para o cinema no Brasil, tendo j\u00e1 algumas centenas de filmes em mais de 20 anos de carreira. De l\u00e1 at\u00e9 hoje, quais foram as principais mudan\u00e7as no cen\u00e1rio da AD no pa\u00eds? Quais as grandes transforma\u00e7\u00f5es voc\u00ea conseguiu acompanhar de perto?<\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para se falar de mudan\u00e7a, \u00e9 fundamental partir de um par\u00e2metro. Quando comecei a fazer audiodescri\u00e7\u00e3o, n\u00e3o havia sequer essa palavra, muito menos o conceito, e tudo, para mim, foi cria\u00e7\u00e3o. Venho de uma forma\u00e7\u00e3o em Filosofia e Cinema, que foram meus fios condutores para a audiodescri\u00e7\u00e3o. As pesquisas sobre fil\u00f3sofos iluministas, obcecados pelas quest\u00f5es do olhar, assim como o estudo das linguagens que constituem o cinema, me levaram \u00e0s possibilidades das tradu\u00e7\u00f5es do olhar, reverberando nas possibilidades das tradu\u00e7\u00f5es das imagens em palavras.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para mim, traduzir \u00e9 abstrair. Ent\u00e3o o que acompanho, desde 1999, \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o da audiodescri\u00e7\u00e3o. Vejo pessoas que se esfor\u00e7am em catequizar a audiodescri\u00e7\u00e3o desde o in\u00edcio, fazer leis intranspon\u00edveis que \u201cdesejam\u201d seguir rigorosamente com objetividade insana. Para mim, a AD \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, posto que parte da subjetividade do olhar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Posto isso, acredito que n\u00e3o tivemos transforma\u00e7\u00f5es. Estamos ainda, do ponto de vista conceitual, criando a audiodescri\u00e7\u00e3o. E tenho me certificado disso a cada dia e, mais especificamente, a partir de 2013, quando foi feito o primeiro curso de especializa\u00e7\u00e3o em AD na Universidade Federal de Juiz de Fora, e, pouco depois, o curso de especializa\u00e7\u00e3o da Universidade do Cear\u00e1, com a forma\u00e7\u00e3o de audiodescritores de excel\u00eancia, que se entregaram com responsabilidade e paix\u00e3o e puderam estudar e pesquisar as diversas linguagens art\u00edsticas para serem audiodescritas, potencializando as aplicabilidades da AD.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ent\u00e3o, posso dizer que uma coisa fundamental para a Forma\u00e7\u00e3o (e n\u00e3o transforma\u00e7\u00e3o) da audiodescri\u00e7\u00e3o no Brasil foram esses dois cursos. Logicamente tivemos avan\u00e7os nas legisla\u00e7\u00f5es, como a Lei Brasileira de Inclus\u00e3o, a partir de nossa Constitui\u00e7\u00e3o, as diretrizes para a AD no Brasil, a ABNT-AD, a obrigatoriedade da AD na televis\u00e3o, e tantas conquistas.<\/span><\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><b> Nesse tempo, qual a situa\u00e7\u00e3o e o trabalho de audiodescri\u00e7\u00e3o mais desafiadores que voc\u00ea encarou?<\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Encarei e encaro muitos desafios, a cada dia. Esses desafios, sim, se transformam. Quando a gente pensa que alguns foram vencidos, aparecem outros\u2026 \u00e9 assim \u00e9 a l\u00f3gica da vida, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Mas, certamente, um dos grandes desafios foi organizar a defesa de uma tese sobre a import\u00e2ncia da linguagem cinematogr\u00e1fica ser contemplada em um roteiro de audiodescri\u00e7\u00e3o de cinema. Hoje, isso pode estar mais dilu\u00eddo, mas n\u00e3o era assim.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 \u00e1rdua tarefa fazer as pessoas entenderem que a audiodescri\u00e7\u00e3o no cinema tem tamb\u00e9m o objetivo de oferecer ao espectador que n\u00e3o enxerga, possibilidades de debater, desenvolver no\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas e argumentar sobre as formas que as imagens se constroem, pois s\u00e3o elas que d\u00e3o sentido a um filme.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O cinema, como arte audiovisual, se comunica por meio de uma linguagem. No que se refere \u00e0 linguagem visual, ou seja, \u00e0 imagem, o cinema constr\u00f3i sua comunica\u00e7\u00e3o de duas formas: pelo conte\u00fado da imagem e pela forma pela qual captamos este conte\u00fado. O conte\u00fado \u00e9 respons\u00e1vel pelo sentido l\u00f3gico. A forma de registro s\u00e3o os planos e movimentos da c\u00e2mera. Se a imagem no cinema constr\u00f3i sua comunica\u00e7\u00e3o pela forma e conte\u00fado, a audiodescri\u00e7\u00e3o no cinema tamb\u00e9m deve seguir os pressupostos da linguagem da arte a que se prop\u00f5e descrever, ou seja, uma audiodescri\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se restrinja a descrever somente o conte\u00fado das imagens, mas que se estenda \u00e0 maneira pela qual elas s\u00e3o registradas, sua linguagem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma pessoa que nasce vendo e escutando cresce, por assim dizer, alfabetizada por c\u00f3digos visuais e sonoros estabelecidos pelos sentidos e pelos ambientes socioculturais. A pessoa que nasce cega, por sua vez, n\u00e3o tem acesso aos c\u00f3digos visuais de comunica\u00e7\u00e3o. Ela recebe, dos que veem, as descri\u00e7\u00f5es das coisas do mundo. Desse modo, esse espectador no cinema s\u00f3 poder\u00e1 imaginar as imagens e os detalhes dos movimentos se conseguir se projetar ali.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ser\u00e1 a audiodescri\u00e7\u00e3o cuidadosa, com os elementos da linguagem da c\u00e2mera, a proximidade, o \u00e2ngulo, que dar\u00e1 a sensa\u00e7\u00e3o, o prazer ou o inc\u00f4modo, seja de um tombo, de um rosto sorrindo, do seio de uma mulher ou de duas pessoas fazendo amor. O audiodescritor ter\u00e1 que, a partir da pluralidade do olhar, dar conta dessa tradu\u00e7\u00e3o visual. Buscamos a objetividade da imagem enquanto ela busca, em n\u00f3s, a subjetividade. Eis a parte invis\u00edvel do olhar: aquela que est\u00e1 na mente de cada um.<\/span><\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><b> O Brasil tem alguma particularidade po\u00e9tica no campo da AD que o diferencia das pr\u00e1ticas em outros pa\u00edses? Como nosso pa\u00eds se situa atualmente no campo da AD? Como ele dialoga com a experi\u00eancia de outros pa\u00edses?<\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu penso que, quanto aos diversos tipos de audiodescri\u00e7\u00e3o no Brasil, n\u00e3o d\u00e1 ainda para gente, embora tentem fazer isso, estabelecer uma vertente, como as pessoas t\u00eam rotulado. Eu acho que h\u00e1 estilos diversos, mas n\u00e3o chamaria ainda de vertentes como as que existem na hist\u00f3ria da pintura, nos grandes movimentos art\u00edsticos, da m\u00fasica, da literatura. Como eu disse acima, acho que a audiodescri\u00e7\u00e3o ainda est\u00e1 se formando. Ent\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 ainda \u201ctransforma\u00e7\u00e3o\u201d a meu ver logicamente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No que tange \u00e0 quest\u00e3o da audiodescri\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, se bem que h\u00e1 v\u00e1rios entendimentos sobre isso, ao meu ver, como venho da Filosofia, para mim, est\u00e1 intr\u00ednseco que, quando olhamos uma imagem, n\u00f3s a vemos como algo imediatamente. Com isso, eu quero dizer que a pluralidade do olhar est\u00e1 intr\u00ednseca em qualquer observa\u00e7\u00e3o, qualquer percep\u00e7\u00e3o. Portanto, num certo sentido, uma tradu\u00e7\u00e3o pode ser clara e objetiva at\u00e9 a p\u00e1gina 2 [risos], porque tudo o que vem do olhar \u00e9 subjetivo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tentamos descrever as imagens de uma forma clara e objetiva certamente, sem ju\u00edzos de valor, mas ela j\u00e1 vem contaminada pelo hist\u00f3rico daquele olhar do audiodescritor e, quando a gente quer, dependendo da linguagem art\u00edstica, como nas obras pict\u00f3ricas, ou esculturas, ou outras linguagens da pintura ou mesmo no teatro, no cinema, querendo ou n\u00e3o, n\u00f3s estamos colocando ali nossa forma de percep\u00e7\u00e3o, o que eu reparei da imagem. Mesmo sendo objetivo, eu estou fazendo uma tradu\u00e7\u00e3o que inclui abstra\u00e7\u00e3o e at\u00e9 outros fatores. Quando eu quero fazer algo mais po\u00e9tico, isso n\u00e3o significa que eu n\u00e3o estou querendo ser objetiva, isso \u00e9 um equ\u00edvoco. \u00c9 simplesmente um outro vi\u00e9s de comunica\u00e7\u00e3o mais po\u00e9tico, talvez mais l\u00edrico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ent\u00e3o, nesse sentido, n\u00e3o conhe\u00e7o todas as audiodescri\u00e7\u00f5es do mundo, ent\u00e3o n\u00e3o posso dizer se o Brasil \u00e9 mais po\u00e9tico ou n\u00e3o, at\u00e9 porque dentro do Brasil existem v\u00e1rias formas de se fazer, outras mais objetivas, do que se pode chamar \u201cpo\u00e9ticas\u201d, outras mais desprendidas das normas, das diretrizes da ABNT. Mas acho que conhe\u00e7o bastante coisa que est\u00e1 indo, nos \u00faltimos anos, para o lado po\u00e9tico. \u201cEsses \u00faltimos anos\u201d, eu me refiro aos \u00faltimos seis, sete anos. Como venho da filosofia, para mim, \u00e9 mais do que natural encontrar a poeticidade das imagens e a poeticidade das palavras. Ent\u00e3o, meu trabalho \u00e9 carregado de poesia natural porque as palavras nos trazem imagens e as imagens nos levam a outras palavras. Portanto, para mim, uma audiodescri\u00e7\u00e3o po\u00e9tica \u00e9 mais do que natural.<\/span><\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li><b> Como \u00e9 a aceita\u00e7\u00e3o e a integra\u00e7\u00e3o de diretores e diretoras, produtores e produtoras em tornar suas produ\u00e7\u00f5es acess\u00edveis? H\u00e1 mais aceita\u00e7\u00e3o ou ainda um certo receio com a pr\u00e1tica da acessibilidade comunicacional?<\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu acho que, hoje em dia, a aceita\u00e7\u00e3o e a integra\u00e7\u00e3o entre diretores, produtores e a gente que faz acessibilidade \u00e9 bem maior do que era 15 anos atr\u00e1s. Antigamente, como n\u00e3o havia verbas, como elas n\u00e3o estavam garantidas nos editais, a gente sempre dependia das pessoas que j\u00e1 trabalhavam com acessibilidade para que se pudesse destinar uma pequena verba para esse trabalho. Mais tarde com LBI, com a inclus\u00e3o<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">das porcentagens nos editais de fomento \u00e0 cultura e com o pr\u00f3prio avan\u00e7o da audiodescri\u00e7\u00e3o da televis\u00e3o, a acessibilidade deixou de ser uma coisa t\u00e3o longe. Eu tenho a impress\u00e3o de que hoje \u00e9 muito mais f\u00e1cil porque voc\u00ea n\u00e3o s\u00f3 tem as leis, mas voc\u00ea tem os produtos sendo divulgados. Ent\u00e3o os produtores culturais, embora as verbas para eles sejam bem restritas ainda, t\u00eam tido experi\u00eancias com acessibilidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu acho que \u00e9 essa \u00e9 a grande quest\u00e3o. Quando eu vou conversar com algum produtor de cinema, de teatro, de museus, eu mostro os produtos com acessibilidade. Ent\u00e3o, o que eu fa\u00e7o com isso? Eu dou oportunidade dele experimentar de se colocar no lugar do outro, experimentar ter essa experi\u00eancia de fechar os olhos e de ouvir ou, na quest\u00e3o da Libras, de n\u00e3o ouvir, s\u00f3 olhar aquelas imagens do audiovisual. Acho que o grande lance \u00e9 estarmos num di\u00e1logo constante de alteridade: essa \u00e9 a grande chave.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o adianta sair gritando que n\u00e3o tem empatia, porque empatia \u00e9 algo t\u00e3o relativo! Como voc\u00ea vai ter empatia por algo se voc\u00ea n\u00e3o teve oportunidade de compartilhar com a diversidade? N\u00e3o existiam pol\u00edticas p\u00fablicas que permitissem o conv\u00edvio da gente com as pessoas com defici\u00eancia. Ent\u00e3o, quando isso come\u00e7a a acontecer, flui de uma forma mais natural. Hoje, meu di\u00e1logo com as pessoas que produzem audiovisual e tamb\u00e9m outras linguagens art\u00edsticas \u00e9 um bom di\u00e1logo. Muito longe do que teria que ser, mas perto do que era, acho que estamos avan\u00e7ando.<\/span><\/p>\n<ol start=\"5\">\n<li><b> Quais os principais pontos atuais da pesquisa em audiodescri\u00e7\u00e3o? Qual o papel das universidades, dos centros de ensino e pesquisa e dos espa\u00e7os de forma\u00e7\u00e3o para a consolida\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de AD?<\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando a gente pensa nas pesquisas que est\u00e3o sendo feitas na \u00e1rea da acessibilidade e da audiodescri\u00e7\u00e3o, elas v\u00e3o em diversas dire\u00e7\u00f5es. Tenho visto colegas estudarem e defenderem disserta\u00e7\u00f5es de mestrado e teses de doutorado nas mais diversas modalidades. A universidade tem um papel fundamental para que se possa dar um respaldo para essas pesquisas acontecerem com bolsas de estudo e tamb\u00e9m para proporcionar os cursos de especializa\u00e7\u00e3o em audiodescri\u00e7\u00e3o. Infelizmente, temos tido muito pouca verba e investimento na forma\u00e7\u00e3o por parte das universidades p\u00fablicas. Esse \u00e9 realmente um entrave.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas posso dizer, por mim, que, sem a universidade, eu n\u00e3o teria organizado minha disserta\u00e7\u00e3o de mestrado que vai dentro da pesquisa da audiodescri\u00e7\u00e3o no cinema. Como j\u00e1 sou da \u00e1rea da Filosofia, poder investigar nos fil\u00f3sofos iluministas todas as quest\u00f5es da Teoria do Olhar e como se d\u00e3o esse olhar e a tradu\u00e7\u00e3o desse olhar foi fundamental para pensar uma audiodescri\u00e7\u00e3o de qualidade no cinema. Tamb\u00e9m foi dentro da universidade que eu pude ministrar cursos de audiodescri\u00e7\u00e3o para as pessoas com defici\u00eancia visual para que se tornassem consultores de roteiro. Isso faz toda diferen\u00e7a: um audiodescritor roteirista vidente ou corroteirista com defici\u00eancia visual, assim como um audiodescritor consultor que conhe\u00e7a a linguagem cinematogr\u00e1fica e como se d\u00e3o esses registros de forma e conte\u00fado, podem, com certeza, construir um roteiro de AD com mais excel\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando a gente conhece a hist\u00f3ria do cinema, a gente entende que existem diversas vertentes cronol\u00f3gicas, existem escolas cinematogr\u00e1ficas, e, quando voc\u00ea conhece as caracter\u00edsticas de cada uma delas, voc\u00ea entende que n\u00e3o se pode fazer audiodescri\u00e7\u00e3o de um filme do expressionismo alem\u00e3o, por exemplo, que prima pelas nuances do claro e escuro, que come\u00e7ou com a quest\u00e3o do terror, do medo no cinema, como se voc\u00ea tivesse fazendo de um filme da Sess\u00e3o da Tarde. Tamb\u00e9m o contr\u00e1rio \u00e9 verdade (risos). N\u00e3o preciso fazer uma AD de um filme comercial com a mesma observ\u00e2ncia da linguagem cinematogr\u00e1fica. A mesma coisa acontece no construtivismo russo, que tem as articula\u00e7\u00f5es de planos, os movimentos de c\u00e2mera que d\u00e3o o sentido do filme, o cinema conceitual. Menos ainda com o neorrealismo italiano, que trabalha com tempo real das estruturas das narrativas, ou o realismo po\u00e9tico franc\u00eas. Enfim, cada escola e, dentro de cada escola, cada diretor, tem um arsenal de linguagem riqu\u00edssimo, que, se voc\u00ea n\u00e3o conhece, voc\u00ea n\u00e3o d\u00e1 conta de fazer essa tradu\u00e7\u00e3o para formar um repert\u00f3rio visual \/ imag\u00e9tico e muito menos simb\u00f3lico para a pessoa com defici\u00eancia visual.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No caso do cinema brasileiro, ent\u00e3o, \u00e9 mais importante. \u00c9 um grande equ\u00edvoco achar que existe \u201co\u201d cinema brasileiro. Que cinema brasileiro \u00e9 esse? Pera\u00ed: de qual cinema est\u00e1 falando? De qual \u00e9poca? De que diretor? N\u00e3o existe \u201cum\u201d cinema brasileiro! \u00c9 um equ\u00edvoco achar que o cinema brasileiro \u00e9 parado ou verborr\u00e1gico, ou tem som ruim, ou n\u00e3o tem t\u00e9cnica, ou \u00e9 cine cabe\u00e7a. A cultura cinematogr\u00e1fica brasileira \u00e9 muito mais ampla do que isso, ela \u00e9 riqu\u00edssima. Ent\u00e3o, a gente tem muitos cinemas brasileiros e quando voc\u00ea n\u00e3o tem a oportunidade de estudar e conhecer, quando voc\u00ea n\u00e3o tem acesso a bons cursos de Forma\u00e7\u00e3o em audiodescri\u00e7\u00e3o, voc\u00ea acaba des-conhecendo e, portanto, se tornando in-capaz de traduzir sua pr\u00f3pria cultura \u2014 o que \u00e9 mais triste. A universidade faz toda diferen\u00e7a. Espero que a gente tenha, no pr\u00f3ximo ano, um governo mais respons\u00e1vel com a cultura e, consequentemente, com as formas de acesso \u00e0 cultura, que se revela na acessibilidade.<\/span><\/p>\n<ol start=\"6\">\n<li><b> Quais as atuais dificuldades no campo? \u00c9 poss\u00edvel indicar alguns pontos de reflex\u00e3o sobre o futuro da AD no Brasil e no mundo?<\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Creio que um dos grandes entraves para acessibilidade, para audiodescri\u00e7\u00e3o no cinema &#8211; vamos nos ater ao cinema \u2014 aqui no Brasil, \u00e9 o mercado da exibi\u00e7\u00e3o. Sempre foi. E me refiro \u00e0 exibi\u00e7\u00e3o do cinema nacional, porque \u00e9 ele que retrata nossa cultura e nos d\u00e1 possibilidades de termos, ou n\u00e3o, a sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Desde a \u00e9poca dos est\u00fadios da Vera Cruz, os grandes produtores j\u00e1 falavam que o problema do Brasil era exibi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 uma lei que garanta que aquela produ\u00e7\u00e3o feita ser\u00e1 exibida por um tempo razo\u00e1vel nas salas de cinema. Sendo assim, no que tange \u00e0 acessibilidade, o problema se estende, por resson\u00e2ncia, na quest\u00e3o da obrigatoriedade dos equipamentos de audiodescri\u00e7\u00e3o nas salas de cinema.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Essa \u00e9 uma quest\u00e3o que o governo tem protelado. \u00c9 inadmiss\u00edvel que tenhamos uma Constitui\u00e7\u00e3o, que garante o direito de acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o e \u00e0 cultura) e efetivamente, n\u00e3o serve a nada. Dependemos sempre de poucas gest\u00f5es isoladas, conscientes e respons\u00e1veis, mas que n\u00e3o s\u00e3o suficientes. Mas elas existem, gra\u00e7as a Deus!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No momento em que o estado n\u00e3o garante os direitos dos cidad\u00e3os, fica bem dif\u00edcil a gente trabalhar uma perspectiva positiva. Ou seja, como fica a quest\u00e3o de direitos e deveres? Temos que pagar nossos impostos, cumprir com nossos deveres, mas nossos direitos n\u00e3o est\u00e3o garantidos? De acordo com o fil\u00f3sofo Hegel, \u201cdireitos e deveres caminham juntos\u201d. E essa quest\u00e3o se estende para todas as esferas, inclusive nas rela\u00e7\u00f5es entre professores e alunos nos cursos de forma\u00e7\u00e3o em audiodescri\u00e7\u00e3o. Quest\u00e3o grave que retomarei em momento oportuno.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ent\u00e3o, creio que o entrave \u00e9 esse: temos que nos mobilizar para que as pol\u00edticas p\u00fablicas cumpram com seus deveres e garantam os direitos das pessoas com defici\u00eancia visual: o acesso ao audiovisual de maneira digna.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por fim, h\u00e1 outra quest\u00e3o grave, de produ\u00e7\u00f5es de audiodescri\u00e7\u00e3o dos filmes, que ficam arquivadas na Cinemateca Brasileira, sem serem exibidas nos cinemas, pois n\u00e3o h\u00e1 equipamento de AD em todas as salas, nem nas TV\u2019s abertas ou fechadas, pois n\u00e3o h\u00e1 fiscaliza\u00e7\u00e3o para que as emissoras reproduzam os filmes com acessibilidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Paira ent\u00e3o a idiossincrasia: as pol\u00edticas p\u00fablicas que, por um lado, garantem os direitos de acessibilidade para as obras audiovisuais, nos editais de fomento \u00e0 cultura, por outro lado, desperdi\u00e7am o dinheiro p\u00fablico, n\u00e3o fiscalizando a utiliza\u00e7\u00e3o desse recurso para seu p\u00fablico-alvo. \u00c9 uma vergonha!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E numa tentativa de falar de um poss\u00edvel futuro para a audiodescri\u00e7\u00e3o no Brasil, eu diria que ainda tenho dentro de mim um grande otimismo! Fruto das rela\u00e7\u00f5es maravilhosas que tenho vivido dentro da audiodescri\u00e7\u00e3o, dos trabalhos de excel\u00eancia que tenho presenciado e da pot\u00eancia de meus alunos! Obrigada a todos voc\u00eas, que fazem desta luta, uma luta de todos!<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;A audiodescri\u00e7\u00e3o \u00e9 art\u00edstica, parte da subjetividade do olhar&#8221; Entrevistamos Bell Machado, pioneira da audiodescri\u00e7\u00e3o no Brasil e uma das homenageadas do 6\u00ba VerOuvindo Bell Machado \u00e9 uma das pioneiras da audiodescri\u00e7\u00e3o no Brasil. 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