{"id":1454,"date":"2021-11-12T08:46:40","date_gmt":"2021-11-12T11:46:40","guid":{"rendered":"https:\/\/verouvindo.com.br\/?p=1454"},"modified":"2022-09-22T00:13:05","modified_gmt":"2022-09-22T03:13:05","slug":"o-corpo-de-quem-traduz-nao-e-legenda-mas-vida-que-pulsa-entrevista-com-o-homenageado-jonatas-medeiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/verouvindo.com.br\/6verouvindo\/o-corpo-de-quem-traduz-nao-e-legenda-mas-vida-que-pulsa-entrevista-com-o-homenageado-jonatas-medeiros\/","title":{"rendered":"\u201cO corpo de quem traduz n\u00e3o \u00e9 legenda, mas vida que pulsa!\u201d. Entrevista com o homenageado Jonatas Medeiros"},"content":{"rendered":"<p><b><i>\u201cO corpo de quem traduz n\u00e3o \u00e9 legenda, mas vida que pulsa!\u201d<br \/>\n<\/i><\/b>O VerOuvindo conversou com o int\u00e9rprete tradutor de Libras e um dos homenageados da sexta edi\u00e7\u00e3o Jonatas Medeiros, que tem feito um amplo trabalho de valoriza\u00e7\u00e3o do papel do tradutor no audiovisual, da expans\u00e3o da Libras nos produtos culturais e pela maior participa\u00e7\u00e3o do p\u00fablico surdo nas defini\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, po\u00e9ticas e pol\u00edticas da acessibilidade.<\/p>\n<p>Confira abaixo o bate papo, que falou desde o uso de figurinos no processo tradut\u00f3rio, o aumento da presen\u00e7a dos int\u00e9rpretes nas produ\u00e7\u00f5es da pandemia, o futuro da janela de Libras no audiovisual e as demandas t\u00e9cnicas nos espa\u00e7os formativos.<\/p>\n<ol>\n<li><b><i> Qual sua opini\u00e3o sobre o uso de figurinos para int\u00e9rpretes de Libras nas produ\u00e7\u00f5es tanto profissionais quanto caseiras? Quais os cuidados e os limites para que o recurso seja proveitoso para o p\u00fablico surdo, mas sem incorrer em preju\u00edzo \u00e0 frui\u00e7\u00e3o?<\/i><\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p>H\u00e1 uma imagem do\/a int\u00e9rprete como sujeito que precisa ser o menos vis\u00edvel poss\u00edvel e que esta atua\u00e7\u00e3o deve ser discreta. Discordo desse lugar, n\u00e3o porque defendo que int\u00e9rpretes devem se sobressair \u00e0 obra em suas atua\u00e7\u00f5es, mas por entender que este corpo que se insere na obra \u00e9 perform\u00e1tico e extremamente vis\u00edvel, independente da indument\u00e1ria utilizada. Na l\u00edngua de sinais, o corpo de quem traduz n\u00e3o \u00e9 uma legenda, n\u00e3o \u00e9 letra morta, mas vida que pulsa, aparece e se imprime na obra.<\/p>\n<p>O cinema, assim como o teatro, possuem como ferramenta a performance (seja na narrativa das atrizes e atores, na ilumina\u00e7\u00e3o, nos enquadramentos ou movimentos de c\u00e2mera), tudo em prol de uma narrativa que sempre ser\u00e1 perform\u00e1tica. A tradu\u00e7\u00e3o dialoga com diferentes elementos de uma obra art\u00edstica; os diferentes personagens, enquadramentos e fotografias n\u00e3o s\u00e3o dispensados do olhar de quem traduz. Na l\u00edngua de sinais, h\u00e1 diferentes g\u00eaneros textuais sinalizados e esses requerem linguagens, posturas e indument\u00e1rias diferentes. Me parece sempre reducionista a ideia de que a mesma forma de se traduzir uma propaganda pol\u00edtica seja a de se traduzir um comercial de TV ou um trabalho cinematogr\u00e1fico. Por\u00e9m, as rupturas com est\u00e9ticas estabelecidas s\u00e3o um processo longo de mudan\u00e7a cultural e de mercado.<\/p>\n<p>Quanto aos cuidados e limites, recai na an\u00e1lise do que contribui para a narrativa, por\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 uma receita pronta e um crit\u00e9rio muito bem definido. Cada obra e seus recursos ir\u00e3o dar a margem dessas possibilidades. O figurino pelo figurino n\u00e3o faz sentido se n\u00e3o fizer parte de um projeto tradut\u00f3rio que amarre essas escolhas indument\u00e1rias e a fa\u00e7am ter sentido na narrativa. A\u00ed entra o trabalho em equipe, a decupagem das personagens traduzidas e seus respectivos figurinos, os cortes na tradu\u00e7\u00e3o entre uma personagem e outra, o n\u00famero de tradutoras\/es envolvidas\/os, a disposi\u00e7\u00e3o dessas\/es na imagem etc.<\/p>\n<p>O que vale \u00e9 a frui\u00e7\u00e3o. De nada vale uma super produ\u00e7\u00e3o se, visualmente, o resultado tradut\u00f3rio n\u00e3o se comunica. Por\u00e9m, gosto da defesa de reconhecer que diferentes g\u00eaneros e formatos solicitam outros recursos de quem produz a tradu\u00e7\u00e3o. \u00c9 entender o traduzir a arte como parte de um processo que \u00e9 tamb\u00e9m art\u00edstico, cheio de camadas complexas que diferenciam diferentes g\u00eaneros e materiais.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><b><i> Com a pandemia, e o uso e produ\u00e7\u00e3o de mais materiais audiovisuais na rede, a presen\u00e7a da janela de Libras se tornou mais comum e mais ampla para a popula\u00e7\u00e3o surda. Voc\u00ea acredita que essa presen\u00e7a deve continuar e\/ou consolidar mais a presen\u00e7a da janela de Libras nos produtos audiovisuais?<\/i><\/b><b> <\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p>Imposs\u00edvel negar que houve um pequeno, mas significativo \u201cboom\u201d da tradu\u00e7\u00e3o em Libras nos materiais audiovisuais e em lives, por exemplo. O fato de artistas como Mar\u00edlia Mendon\u00e7a endossarem a presen\u00e7a de int\u00e9rpretes de Libras, permitiu aproxima\u00e7\u00e3o maior do p\u00fablico surdo a esses diferentes conte\u00fados, assim como ampliou o olhar das pessoas ouvintes para a Libras, agu\u00e7ando o imagin\u00e1rio social sobre essa l\u00edngua e as\/os profissionais que trabalham com ela. Todos ficaram regozijados com a int\u00e9rprete Gessilma sinalizando \u201capaixonadinha\u201d, \u201croubando a cena\u201d e ganhando destaque em diversos jornais e portais devido a sua performance t\u00e3o encantadora.<\/p>\n<p>Hoje a l\u00edngua de sinais \u00e9 mais presente em propagandas p\u00fablicas vinculadas a TVs abertas e em canais p\u00fablicos, por\u00e9m ainda \u00e9 um crescimento t\u00edmido, j\u00e1 que esse \u201cboom\u201d \u00e9 simb\u00f3lico em um deserto t\u00e3o vazio, possivelmente o avan\u00e7o n\u00e3o represente nem 2% do que se veicula hoje nas m\u00eddias. Al\u00e9m disso, temos um problema de distribui\u00e7\u00e3o de materiais com tradu\u00e7\u00e3o em Libras.<\/p>\n<p>No caso de filmes registrados na Ancine, h\u00e1 um evidente desinteresse em fazer circular conte\u00fados com tradu\u00e7\u00e3o em Libras e outras linguagens de acesso como a tradu\u00e7\u00e3o em audiodescri\u00e7\u00e3o. O mercado n\u00e3o absorve, n\u00e3o distribui e as pol\u00edticas n\u00e3o tencionam a exibi\u00e7\u00e3o desses materiais. Se, por um lado, h\u00e1 um acelera\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de tradu\u00e7\u00e3o em Libras no audiovisual por for\u00e7a de lei, h\u00e1, por outro, uma inibi\u00e7\u00e3o da aproxima\u00e7\u00e3o da comunidade surda e seu acesso ao audiovisual por uma pol\u00edtica de \u201csilenciamento\u201d e &#8220;esquecimento&#8221; desses materiais traduzidos.<\/p>\n<p>\u00c9 desej\u00e1vel a continua\u00e7\u00e3o desse aumento, amplia\u00e7\u00e3o e perman\u00eancia dos servi\u00e7os de tradu\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o em materiais audiovisuais, por\u00e9m h\u00e1 dois fatores que acredito serem importantes. O primeiro \u00e9 a quebra da \u201cm\u00e1scara benevolente\u201d que se deposita na Libras, sua coloniza\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, fotogr\u00e1fica e espacial. N\u00e3o basta colocar a l\u00edngua em um espa\u00e7o sem permitir que ela seja atrativa qualitativamente, produzida em di\u00e1logo com a comunidade surda e sendo pensada na sua complexidade durante toda a produ\u00e7\u00e3o\u00a0 daquele material audiovisual. \u201cColoca a janelinha e resolve isso logo\u201d \u00e9 o que j\u00e1 me disseram, no diminutivo, para demarcar n\u00e3o apenas um espa\u00e7o de inser\u00e7\u00e3o, mas principalmente de import\u00e2ncia para produtores\/as e diretores\/as.<\/p>\n<p>O segundo ponto \u00e9 a compreens\u00e3o hist\u00f3rica de que h\u00e1 uma popula\u00e7\u00e3o que nunca teve acesso a esses conte\u00fados e que portanto est\u00e3o no que chamamos de \u201cforma\u00e7\u00e3o de p\u00fablico\u201d, o que implica um processo de aproxima\u00e7\u00e3o, letramento nas diferentes m\u00eddias e h\u00e1bito ao acesso dessas atrav\u00e9s da l\u00edngua de sinais. Isso requer aproxima\u00e7\u00e3o, di\u00e1logo, inventividade e, principalmente, desejo de ter a comunidade surda como telespectadora, sujeitos pensantes e cr\u00edticos de obras audiovisuais. Por\u00e9m, a desumaniza\u00e7\u00e3o das pessoas surdas na hist\u00f3ria, respinga nessa \u201cjanelinha\u201d que, de prefer\u00eancia, deve ficar guardada em um arquivo bem morto.<\/p>\n<p>Por fim, gostaria de comentar que as comunidades surdas atuais possuem uma caracter\u00edstica cibercultural, onde a rela\u00e7\u00e3o com plataformas digitais e redes sociais tornam-se espa\u00e7os de trocas n\u00e3o-compartilhadas em outras gera\u00e7\u00f5es surdas que n\u00e3o possu\u00edam tecnologias de contato em l\u00edngua de sinais fora da presencialidade. Essa quest\u00e3o \u00e9 primordial para reconhecermos as pr\u00f3prias produ\u00e7\u00f5es surdas, suas est\u00e9ticas em diferentes g\u00eaneros sinalizados e seus interesses. Creio que a\u00ed residem aspectos interessantes para se pensar projetos de tradu\u00e7\u00f5es audiovisuais em diferentes formatos em di\u00e1logo com aquilo que as comunidades surdas j\u00e1 nos revelam como possibilidades. Falar a l\u00edngua deles, mas tamb\u00e9m suas est\u00e9ticas, culturas e desejos.<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><b><i> Pela experi\u00eancia, como voc\u00ea v\u00ea o uso da Libras no audiovisual no futuro, em cerca de dez anos? Tanto no cinema, como tamb\u00e9m na TV e nos servi\u00e7os de streaming? Voc\u00ea acha que a inclus\u00e3o pode vir a ser maior?<\/i><\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p>Quando comecei a aprender Libras, h\u00e1 18 anos atr\u00e1s, as pol\u00edticas eram incipientes, localizando a experi\u00eancia surda em uma narrativa estritamente patol\u00f3gica. Na \u00e9poca n\u00e3o conseguia vislumbrar os avan\u00e7os que temos hoje. Hoje, \u00e9 vis\u00edvel o salto que tivemos quantitativa e qualitativamente. Por\u00e9m, temos que estar atentos\/as, pois, em se tratando de uma minoria, os retrocessos e suspens\u00f5es de direitos s\u00e3o sempre iminentes. Cabe salientar o lobby para retardar a obrigatoriedade de tradu\u00e7\u00e3o em Libras nas produ\u00e7\u00f5es audiovisuais registradas na Ancine desde 2015, ou at\u00e9 mesmo a tentativa (frustrada, ainda bem) de destituir o direito das escolas bil\u00edngues para surdos, tornado-as inconstitucionais, como ocorreu recentemente nas discuss\u00f5es sobre a PL 4.909\/2020 e sua inser\u00e7\u00e3o na LDB.<\/p>\n<p>Se buscamos um projeto pol\u00edtico emancipat\u00f3rio e se reconhecemos narrativas que versam sobre a diversidade e a pluralidade, devemos tomar a \u00e9tica da diferen\u00e7a e a \u00e9tica inclusiva como basilar para esses projetos. N\u00e3o podem ser aceit\u00e1veis produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas que desconsiderem a Libras ou a audiodescri\u00e7\u00e3o. Precisamos questionar a \u201carte para todes\u201d que ignora que pessoas surdas ou pessoas cegas sejam poss\u00edveis p\u00fablicos. Precisamos questionar a fal\u00e1cia da inclus\u00e3o que nos toma apenas como \u201ccontrapartida\u201d. Se h\u00e1 uma subvers\u00e3o iminente na arte que se prop\u00f5e contra projetos coloniais, queremos ser o \u201cponto de partida\u201d, mas, para isso, precisamos tensionar, nos mostrar presentes e demandar sempre mais.<\/p>\n<p>Que daqui a 10 anos possamos conquistar, no m\u00ednimo, uma cota de tela nas TVs de concess\u00e3o p\u00fablica com programa\u00e7\u00e3o traduzida em Libras, cotas de exibi\u00e7\u00e3o de filmes com Libras nas salas de cinemas e em plataformas de streaming. Somos maiores que ontem e seremos maiores que hoje, precisamos povoar o imagin\u00e1rio social e mostrar que o n\u00e3o acesso de uma parcela da sociedade \u00e9 um projeto pol\u00edtico estrutural que incide na vida de pessoas surdas em todos os espa\u00e7os e a todo momento. \u00c9 necropol\u00edtico quando se matam subjetividades, abafam pot\u00eancias, colonizam-se mentes em detrimento de um padr\u00e3o ouvinte de existir. Temos que falar sobre isso, para, no futuro, deixar virar met\u00e1fora a linguagem morta da \u201cbarreira\u201d e da \u201cinacessibilidade\u201d dos tempos modernos (?).<\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li><b><i> Voc\u00ea tem um grande acesso e influ\u00eancia sobre o campo de acessibilidade para pessoas surdas e a janela de Libras por meio da internet, em especial do Youtube e redes sociais. Voc\u00ea tem dado cursos regularmente tamb\u00e9m pela internet? Qual o fluxo e quais as principais dificuldades e demandas do p\u00fablico?<\/i><\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p>Nesse per\u00edodo pand\u00eamico, tive a oportunidade de ministrar alguns cursos remotamente, e percebi a ansiedade de profissionais que veem um mercado que se alarga mas que n\u00e3o os compreende, assim como cursos de forma\u00e7\u00e3o de tradutores e int\u00e9rpretes de Libras que n\u00e3o abarcam as especificidades da tradu\u00e7\u00e3o audiovisual em l\u00edngua de sinais &#8211; TALS.<\/p>\n<p>Infelizmente, muitos est\u00e3o aprendendo enquanto produzem, sem terem experi\u00eancia ou conhecimento dos processos que envolvem uma tradu\u00e7\u00e3o audiovisual. Muitos acreditam que a \u201cjanela de Libras\u201d \u00e9 apenas uma tradu\u00e7\u00e3o inserida no v\u00eddeo, sem levar em considera\u00e7\u00e3o as diferentes etapas, linguagens e camadas presentes num material audiovisual. Reconhecer que n\u00e3o se trata apenas da tradu\u00e7\u00e3o da linguagem verbal, mas tamb\u00e9m de um di\u00e1logo tradut\u00f3rio com a linguagem n\u00e3o verbal \u00e9 uma das primeiras discuss\u00f5es que percebo como essencial com grupos que trabalhei.<\/p>\n<p>A verbovisualidade no audiovisual \u00e9 uma linguagem mestra, que n\u00e3o se separa, mas se formula em rela\u00e7\u00e3o. Os sentidos s\u00e3o imbricados entre o que \u00e9 verbal e o que \u00e9 visual. Al\u00e9m disso, outro aspecto que me chama aten\u00e7\u00e3o nessa experi\u00eancia de forma\u00e7\u00e3o s\u00e3o as d\u00favidas t\u00e9cnicas desses profissionais, quanto ao uso da c\u00e2mera, enquadramento, ilumina\u00e7\u00e3o, edi\u00e7\u00e3o e entrega de tradu\u00e7\u00f5es em v\u00eddeo. Isso demanda a meu ver uma amplia\u00e7\u00e3o da discuss\u00e3o n\u00e3o apenas com a categoria de int\u00e9rpretes sobre essas etapas, mas tamb\u00e9m com as contratantes e produtoras que tendem a desconsiderar a complexidade da tradu\u00e7\u00e3o audiovisual em Libras e todos os recursos t\u00e9cnicos empregados para tal.<\/p>\n<ol start=\"5\">\n<li><b><i> Como voc\u00ea percebe a atua\u00e7\u00e3o dos surdos tanto como consultores, mas tamb\u00e9m no papel de tradutores int\u00e9rpretes de Libras? Que elementos podem emergir nessas mudan\u00e7as? O que \u00e9 preciso, nesse caso, para a fun\u00e7\u00e3o do surdo como consultor?<\/i><\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p>Int\u00e9rpretes e tradutoras\/es surdas\/os geralmente possuem maior dom\u00ednio lingu\u00edstico-cultural na l\u00edngua de chegada, o que n\u00e3o desconsidera a presen\u00e7a de profissionais ouvintes que dominam de forma mais s\u00f3lida os textos de partida em portugu\u00eas que, em materiais audiovisuais, s\u00e3o na sua maioria dire\u00e7\u00e3o portugu\u00eas-libras. O trabalho em equipe \u00e9 primordial, afinal se entendemos que o cinema \u00e9 uma arte coletiva, porque a tradu\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica seria uma atividade individual? A\u00ed que entra o olhar surdo na consultoria ou mesmo na performance tradut\u00f3ria, ressaltando elementos da visualidade da l\u00edngua de sinais, contribuindo com solu\u00e7\u00f5es tradut\u00f3rias mais aproximadas da perspectiva surda e contribuindo diretamente com a representatividade surda em espa\u00e7os de visibilidade.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, vale ressaltar que o mercado audiovisual ainda n\u00e3o assimilou a presen\u00e7a de profissionais surdos\/as, uma vez que os or\u00e7amentos s\u00e3o geralmente destinados para qui\u00e7\u00e1 pagar um\/a profissional tradutor de Libras ouvinte. Ocorre que, em muitas situa\u00e7\u00f5es, a inser\u00e7\u00e3o de tradutoras\/es surdas nesses espa\u00e7os s\u00e3o forjados pela ag\u00eancia de tradutoras\/es int\u00e9rpretes ouvintes, que imbu\u00eddos de uma caracter\u00edstica de aliados e reconhecendo a import\u00e2ncia de profissionais surdos no processo, os trazem para o cen\u00e1rio mesmo sem as devidas condi\u00e7\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias e de tempo para suas tradu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Na minha experi\u00eancia com tradutoras\/es int\u00e9rpretes surdas\/os, sempre foi not\u00f3ria a qualidade final das tradu\u00e7\u00f5es, assim como as etapas tornam-se linguisticamente mais ricas e mais bem formuladas, al\u00e9m da seguran\u00e7a maior em ter um olhar biocultural de um\/a tradutor\/a pertencente ao p\u00fablico-alvo daquela tradu\u00e7\u00e3o. Pessoas surdas gostam de ver suas l\u00ednguas representadas por outras pessoas surdas, veem nessa a\u00e7\u00e3o uma identifica\u00e7\u00e3o, o que contribui para a pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o de p\u00fablico no audiovisual. Importante ressaltar que a soma com profissionais surdas\/os n\u00e3o exclui de forma alguma o trabalho de tradutoras\/es int\u00e9rpretes ouvintes, mas se complementa e se atravessa na medida que as duas culturas em contato podem produzir maiores discuss\u00f5es acerca das escolhas tradut\u00f3rias e est\u00e9ticas.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 fun\u00e7\u00e3o de surdas\/os consultoras\/es, o envolvimento com os estudos da tradu\u00e7\u00e3o e o conhecimento das l\u00ednguas em quest\u00e3o \u00e9 primordial. Ningu\u00e9m nasce tradutor\/a, mas aprende a ser. Por\u00e9m, habilidades lingu\u00edsticas, mesmo sem forma\u00e7\u00e3o, devem ser consideradas, uma vez que ainda temos poucos espa\u00e7os de forma\u00e7\u00e3o para tradutoras\/es surdas\/os, o que nos demanda uma postura mais branda e de constru\u00e7\u00e3o conjunta desse lugar almejado. J\u00e1 trabalhei com pessoas surdas que n\u00e3o necessariamente tinham experi\u00eancias tradut\u00f3rias, mas, enquanto pessoas bil\u00edngues e sinalizantes ex\u00edmios, contribu\u00edram e performatizaram tradu\u00e7\u00f5es t\u00e3o competentes quanto profissionais mais acad\u00eamicos ou certificados.<\/p>\n<p>Devemos estimular a forma\u00e7\u00e3o de int\u00e9rpretes e tradutores\/as surdos\/as, mas, na falta, \u00e9 necess\u00e1rio engajar, aprender tamb\u00e9m no processo e compartilhar conhecimentos, afinal a tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 algo presente nas experi\u00eancias surdas bil\u00edngues, e essas t\u00eam muito a nos dizer. Um olhar surdo revela aspectos que passam despercebidos pela nossa experi\u00eancia enquanto tradutores\/as ouvintes lapidando e \u201censurdecendo\u201d o processo tradut\u00f3rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO corpo de quem traduz n\u00e3o \u00e9 legenda, mas vida que pulsa!\u201d O VerOuvindo conversou com o int\u00e9rprete tradutor de Libras e um dos homenageados da sexta edi\u00e7\u00e3o Jonatas Medeiros, que tem feito um amplo trabalho de valoriza\u00e7\u00e3o do papel do tradutor no audiovisual, da expans\u00e3o da Libras nos produtos culturais e pela maior participa\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":1458,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/verouvindo.com.br\/6verouvindo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1454"}],"collection":[{"href":"https:\/\/verouvindo.com.br\/6verouvindo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/verouvindo.com.br\/6verouvindo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/verouvindo.com.br\/6verouvindo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/verouvindo.com.br\/6verouvindo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1454"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/verouvindo.com.br\/6verouvindo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1454\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1457,"href":"https:\/\/verouvindo.com.br\/6verouvindo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1454\/revisions\/1457"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/verouvindo.com.br\/6verouvindo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1458"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/verouvindo.com.br\/6verouvindo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1454"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/verouvindo.com.br\/6verouvindo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1454"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/verouvindo.com.br\/6verouvindo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1454"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}